terça-feira, 12 de maio de 2009

Ngong Krong e alguma filosofia barata (diria mesmo, grátis)



Nalgumas das ilhas da Indonésia há o tradicional costume masculino chamado Ngong Krong. Consiste isto em ficar sentado em cima da bunda (de cócoras) durante tempo indeterminado, em qualquer lugar, sozinho consigo mesmo, e a fazer... absolutamente nada. Uma espécie de momento de pausa, mas sem Kit-Kat. Os deuses balineses deram ao homem a missão de cuidar da família e de pensar na vida dos que lhe são próximos. E enquanto o homem passa a vida a meditar sobre tão importante assunto, a mulher vai cuidando de outras coisas de somenos importância... enfim essas coisas mundanas, como por exemplo... trabalhar! Em casa, e fora dela.

Durante esse tempo (que pode ser 10 minutos como pode ser 2 horas), o mundo pára e cristaliza-se, subjugado à simples existência humana (filosofia de cordel?). Afinal, se o Deus balinês proviu o homem de cérebro, foi para pensar -  também na sua própria existência. Dizem eles!

No ocidente também se pensa. Depois de enervar um vendedor de bikinis durante uma hora a desarrumar a loja toda à procura de “aquele que é o perfeito”, a compradora anuncia a decisão simples e definitiva: “Vou pensar!”. Pensamento este que dura até ser transposta a porta da loja.

“Estou a pensar mandar o gajo dar uma curva! O que é que tu achas?”. Assim se acha, pensa, e pondera. Como um bolo que se vai cozinhando devagar e por si só, sem grande intervenção cerebral. É uma “ponderação” que pode explodir numa decisão a qualquer momento, como pode vir a não explodir nunca. Daí o papel do “achar” externo como se fora o detonador que se pretende para a decisão.

Pensar não é achar, não é sentir, não é ponderar, não é não decidir, não é adiar porque dá trabalho. Pensar é um processo que começa com observar e captar, segue com questionar, analisar, classificar e finalmente concluir algo diverso do input inicial. Por isso, pensar dá trabalho, custa e demora. Isto é assim no ocidente pelo menos desde que o livro do nosso amigo Descartes ainda estava na moda e se vendia na era pré-Bertrand. Penso eu de que...

Pensar é um direito, mesmo que resulte num pensamento estúpido. Basta que dê trabalho a tê-lo já estará, ipso facto, constitucionalmente consagrado enquanto direito - e mesmo enquanto dever. Não é previlégio nem de iluminados, nem de votantes de 4 em 4 anos.

Mas esse é o problema: pensar e treinar a mente, dá trabalho. Assim como dá trabalho malhar o corpo no ginásio. O tempo porém, encarrega-se de transformar esse trabalho em prazer.

Seria previsível que, conseguindo os nossos potentes computadores captar, analisar, classificar e até concluir, fosse finalmente libertado o nosso tempo - aquele de que tanto necessitamos para coisas mais importantes. Aquele tempo de cuja falta tanto nos queixamos.

E quando o temos? O que fazemos então com esse tempo? Pensamos?? Nem pensar!

Ao menos questionamos? Só se for “quanto tempo é que ainda vai demorar a vir o prato que eu pedi há 20 minutos?”.

Praticamos o ngong krong ocidental: um copo de cerveja aqui, uma limpeza de fralda ali, uma ida à praia acolá, uma bem dada assim, uma novela ou uma revista assado, um formulário daqui, uma chapa dali, um cut & paste, envia pelo terminal, e já está! Tudo é automático, pensar para quê?

E assim se esvai o tempo e o mundo continua a rodar. Mais asno, mas mais rápido.

A pensar morreu um burro. Mas morreu feliz e mentalmente activo.

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