sábado, 3 de julho de 2010

Mais tomates e menos fruta

Quando ainda há menos de dois anos eu percorria as empoeiradas cidades Indonésias e me deparava com bazares e lojas de roupa contrafeita, lá estava sempre, a par da alemã e da italiana, da argentina e da brasileira, a camisola da selecção nacional portuguesa. Os indonésios interpelavam-me e falavam do Figo e mesmo do Cristiano Ronaldo. No Kosovo de hoje a realidade é diferente. As camisolas contrafeitas lá continuam penduradas da mesma maneira, mas a portuguesa simplesmente não existe. As interpelações sobre o Cristiano Ronaldo e o Mourinho (Maurínio, como lhe chamam aqui) continuam, mas os comentários são diferentes: “Portugal sabe jogar futebol mas não quer, e não quer porque é medroso e quem é medroso não merece ganhar nem merece respeito e admiração” . E ainda acrescentam: “se os kosovares tivessem medo ainda hoje eram o capacho rural da Sérvia”.

Uma opinião generalizada não deixa de ser uma opinião, mas fez-me reflectir nos famosos “e ses”. E se o nosso tataravô Afonso Henriques tivesse tido medo dos Leoneses e dos Muçulmanos? E se o Vasco da Gama, trémulo ao Adamastor, tivesse voltado para trás pensando já ter navegado longe o suficiente e com a sensação de dever cumprido? E se o Figo, com tantos ingleses pela frente, não tivesse disparado a 40 metros e tivesse antes optado por lateralizar? Passados que são 1000, 500 ou 8 anos, em Portugal, na Indonésia, no Kosovo ou na Cochichina, todos se lembram do que realmente aconteceu e nem questionam como poderia ter acontecido. Neste mundo aleatório e redondo como uma Jabulani, é difícil conjecturar o futuro, mas pelo menos uma conclusão será difícil de afastar: o risco, a ambição e a coragem impõem respeito e admiração, e vendem camisolas mundo afora.

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