A corrupção era endémica nos finais do antigo regime jugoslavo e mais continuou a ser em todos os anos de transição até 2001, altura em que, para grande parte da comunidade internacional o Kosovo passou a protectorado internacional sob a supervisão das Nações Unidas; para 90% dos habitantes e para alguma parte da comunidade internacional, um país novo; e para 10% dos habitantes, parte da Sérvia.
Com tanta indefinição é natural e humano que a degradação das instituições se acentue e, correlativamente, a corrupção também.
Quem aqui vive sabe à partida que não há notícias inocentes e imparciais. Todas detêm um objectivo, todas pretendem mais agitar do que informar. A grande vantagem provém contudo do facto de só haver 2 partes possíveis. Ou pró-Albanesa (Kosovar), ou pró-Sérvia. Também outra realidade ajuda bastante à filtragem: em 90% dos casos o exagero e a parcialidade são tão manifestos que a pretendida credibilidade, ou liminarmente se esfuma, ou só convence os néscios, os quais continua todavia a agitar – de ambos os lados.
Assim, quando se fala de corrupção a níveis monstruosos a ponto de se classificar o Kosovo como o buraco negro da Europa, por onde entram droga, armas, máfias e prostitutas (e já agora a gripe aviária e o Ebola), fala-se de mais um exagero, facilmente aqui reconhecido. Contudo, a ignorância e o pavor da Europa comunitária perante tais perigos parecem querer olvidar que a União Europeia afinal não inclui o Kosovo - embora inclua a Roménia e a Bulgária.
Admito que aqui se situe alguma das “base de ataque” à entrada na Europa por parte de todas as referidas máfias, à semelhança de Marrocos, embora muito menos organizadas e visíveis. Asseguro porém que quem entra no Kosovo não se depara com 50 circos de prostitutas armadas e pedradas a fazerem fila para pagarem as taxas de embarque nos contentores dos camiões que seguem para Paris ou Berlim. Também ninguém anda nas caixas das camionetas a distribuir tiros pelas cidades enquanto puxa uma passa no cigarro.
Por isso, não é o far-west; e lamento desapontar quem em mim quiser crer.
A intervenção internacional da UN (e agora da Eulex) priorizou o combate contra a corrupção, entre os vários pilares do Estado de Direito que se pretende implementar, paulatina, mas estrutural e solidamente. A publicidade e as conversas sobre a corrupção são recorrentes e embora apareçam duma forma inocente – ou ridícula para os Estados da UE – todavia têm provocado grande impacto na população em geral. Talvez beneficiando do facto do dinheiro e do consumismo não se terem ainda instalado de forma significativa por alguma falta de contacto directo com países estrangeiros (vistos de entrada fáceis, só para a Turquia, Montenegro, Macedónia e Albânia), as ideias vão-se cimentando, até exageradamente.
Assim, se alguma loja vende um litro de leite por 1 Euro quando ele custa 0,50 na maioria das restantes lojas, o que é afinal isto? Corrupção, claro!
Se um juiz profere uma sentença declarativa e depois o mesmo juiz executa essa sentença, o que é isto na mente do executado? Coincidência? Norma legal? Não. Corrupção, claro!
Não nos esqueçamos de certos outros países onde depois de certas revoluções, qualquer dono de loja privada, dono de automóvel, socialista moderado, homem barbeado e com cabelo curto, ou mesmo qualquer sportinguista pouco dado à cor vermelha, eram automaticamente chamados de “fascistas”!
Mas uma coisa posso garantir: não existe cidadão mais atento ao fenómeno e ao conceito do que o cidadão kosovar.
E cá estamos nós, UE, para ajudar a esclarecer e a desenvolver o combate a essa realidade, infelizmente universal.
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