quarta-feira, 29 de abril de 2009

Mulheres Kosovares

Como bem referiu Argjend, meu funcionário, elas acham-se as maiores estrelas de cinema e só não estão em Hollywood porque os produtores e descobridores de talentos andam cegos.

É vê-las passar na rua com óculos escuros enormes, maquilhagem irrepreensível, cabelos pretos brilhantes, bem penteados, calças Cavalli, Dolce & Gabanna ou Moschinno, bem justas e... experimenta olhar para elas! Olham em frente, num olhar compenetrado e sério a roçar o desprezo. Estrelas de cinema não cruzam olhares com qualquer um na rua.

Se pensas assim não percebes o Kosovo.

O que parece, a maior parte das vezes não é. Há que relembrar os séculos de aculturação otomana, logo corânica. É por isso que elas te soltam um sério ar de desprezo quando se sentem observadas. Mulher que é séria não responde a olhar masculino.

Só que, quando tu olhas para elas, já elas te toparam, miraram, analisaram, te fizeram um scanner e um TAC de alto a baixo. Elas jogam na antecipação, meu filho! São muçulmanas, mas também são filhas de Deus.

Por outro lado, enquanto boa tradição turca, as referidas calças Cavalli, Dolce & Gabanna ou Moschinno, observando bem, não são lá tão Cavalli, Dolce & Gabanna ou Moschinno. Algo de errado me faz repentinamente pensar na ASAE.

A cor preta predomina sempre na indumentária, no que não têm as mulheres o exclusivo. O Kosovo em geral é a preto e branco.

A maquilhagem irrepreensível duplica o tamanho dos olhos já de si enormes, envolvidos em grossos traços negros, chamando assim a atenção para aquelas janelas da alma, mas afinal, parece que com outro objectivo: desviar a atenção do torto apêndice que os separa. Na verdade, os narizes, ainda que femininos, herdaram a característica turca dos antepassados e são normalmente tão direitinhos que, ao contrário, serviriam perfeitamente de cabide.

Também outra característica não as favorece muito. Talvez devido a uma desadequada mas habitual dieta de pão frito, que as acompanha numa inculpável herança genética, as bundas são normalmente... inesteticamente abundantes, e encimadas por umas pernas com o cós pouco distante dos pés, apesar do salto agulha com que tentam minorar o problema. Assim não é, porém, quando por obra do destino, lá se encontre na história familiar uma costelinha - ou melhor, uma perninha - sérvia ou eslava.

Sobra assim o cabelo, do preto-preto mais cuidado e charmoso que se pode encontrar entre a Europa e a Ásia. Lisos e brilhantes (não digo sedosos, apenas porque não toquei, não vá haver confusões!) a fazer inveja a frisados e esgadelhados, da Itália à Pérsia. Também a referida costelinha sérvia ou eslava pode clarear um pouco a realidade, mas normalmente para pior, porque fica uma coisa que nem é carne nem é peixe e que, como se dizia na tropa, não fica bom, nem fica mau...

Queixam-se os amigos Carabinieri colocados na missão que a coisa por aqui “não desenvolve” como eles gostariam e estão habituados noutras missões de (muita) paz. Parece que a fama de que gozam não lhes traz o proveito a que se habituaram por outras paragens. Aqui, amico, raramente encontras um olhar directo feminino. E se por acaso o encontrares, não te esqueças nunca dos outros 4 ou 5 pares de olhos ao lado, normalmente masculinos e, coincidentemente, sempre de familiares chegados. Ao contrário da velha tradição lusitana onde “molhou, casou!” aqui será mais “primeiro casou!”. Aqui por estes lados, o “molhou, casou!”, segundo o ainda aplicável código de Lek Djukadjini, é mais “molhou, ficou sem ele!”. Adesso, toma cuidado, senão voltas para casa da Mama como estropiado de guerra e a falar fininho, capisci?

Mas não se queixem os olheiros. A coisa não é tão assim tão má como a pintei. O mundo global tem-se imposto, a emigração na Suiça e na Alemanha tem trazido outros padrões a esta terra, já não se vêm só matrioshkas turcas embrulhadas em pano até à testa, já não se casam as meninas com quem só conhecem no dia do casamento (pelo menos nas maiores urbes), já se vão vendo algumas mulheres – jovens – em mesas de café, todas elas portando entre os dedos o símbolo da liberdade e da emancipação: o cigarro. Já se vão vendo – eu diria, com uma frequência arrepiante - umas quantas brasas bamboleando discretamente as ancas com roupa justa e feminina.

Feminilidade não falta numa terra onde limparam uma quantidade enorme de homens há menos de 10 anos e onde procura e oferta andam um bocadinho como o Dólar e o Euro – desorientados, mas nunca perdendo o outro de vista.

Portanto, meu filho: se estás disposto a desbravar terreno, vai em frente mas não te esqueças nunca do formato ponteagudo e levantado dos sapatos delas. Podem causar danos irreparáveis. Mas podem acontecer surpresas agradáveis que, pelo que dizem, valem bem o risco. Se é verdade ou mentira sobre isso não posso pronunciar-me. Só falo do que vejo e do que me contam. Fica assim aqui o report “au vol d’aigle”a específico pedido de várias famílias.

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