domingo, 24 de maio de 2009

Javardices vs. Limpezas

Aviso: o presente post revelar-se-á gastro-contundente. Se apresenta sensibilidades especiais nesse campo, por favor não leia mais e passe aos outros. Tenho até a decência de não juntar fotografia ilustrativa, como de costume.





O Kosovo não é um lugar turístico (nem sequer para turismo em serviço). Apesar das pessoas serem tranquilas, simpáticas e falarem bem devagar, não é propriamente o alentejo sérvio. Talvez os padrões de limpeza e organização europeus cheguem um dia, mas há sempre factores culturais a levar em conta.


O que no ocidente se chama de passeio para peões, aqui chama-se parque de estacionamento. Estaciona-se onde for, como for, desde que caiba. Os peões (tranquilos e simpáticos, como se disse) contornam os carros como no labirinto de Creta, e nem sequer deixam como recordação um risco na porta dos veículos, como se faz amiúde em países mais civilizados.


Se numa qualquer noite de verão experimentarmos deixar um carro estacionado debaixo de uma árvore na avenida central de Faro, o resultado, apesar de francamente visível no dia seguinte, é de uma extraordinária limpeza, ao lado da mesma experiência, durante o verão ou inverno, em qualquer via urbana de Prishtina. Se em Faro haverá, talvez uns 50 mil pombos e meia dúzia de cegonhas, em Prishtina, os pombos não atingem metade desse número, mas juntam-se-lhes uns 500 mil corvos, em autênticas nuvens negras, barulhentos ao limite, menos quando deviam sê-lo. O risco de apanhar com uma desagradável bazookada em cheio na testa está longe de se poder considerar uma inevitabilidade, mas é factor a aconselhar fortemente o uso de chapéu. Os kosovares consideram-na porém uma benção vinda do céu e, tranquilos e simpáticos que são, sorriem, sacodem como podem, e nem ponta de injúria dirigida aos culpados!


Noutras paragens a arte manual é normalmente orientada para o piano, para o tear ou bordados, para a pintura, para o furto até. Aqui a verdadeira arte manual consubstancia-se numa útil e comum actividade: a palitagem dos dentes pós-refeição. Movimentos rápidos, certeiros, eficazes, com uma técnica apurada e treinada várias vezes ao dia. Não requer escola porque é facilmente apreensível em qualquer lugar, por quem quiser observar.


Na inexistência de litoral marítimo, nos arredores de Prishtina existem uns lagos artificiais enormes, criados no tempo da Jugoslávia. Servem a todos e para tudo. São a praia local ao fim de semana, servindo de paisagem a inúmeros pic-nics familiares (de onde resultam milhentos sacos de lixo cheios e fechados à espera que alguem um dia os leve dali); são pasto de vacas durante a semana (que ali comem e não só, onde as famílias depois se estendem, acomodam e afofam); são cemitério de inúmeras campas, devidamente identificadas (para os mortos descansarem em paz com vista sobre o lago); finalmente são reservatório de água doméstica para o abastecimento canalizado de Prishtina.


Devido ao elevado consumo tabágico, a salivação torna-se frequentemente desagradável e seca ao longo do dia, o que implica uma renovação e saneamento constantes. Assim, há em todo o Kosovo o hábito de cuspir para o chão com uma frequência inusitada noutras paragens, pelo menos nos dias de hoje. Se não discretamente a ponto de, pelo menos, se tentar evitar que alguem cruze o olhar com tal actividade, não se pode dizer que se faça isso desprovido de total preocupação. Regra básica da actividade: só se cospe para a frente do próprio pé ou para lugar onde se tenha a certeza que não vem gente e se saiba onde se acerta. É também regra de educação pisar-se imediatamente o resultado a fim de melhorar o aspecto, e de assim se evitar que algum transeunte ali escorregue inadvertidamente. Não nos esqueçamos de outros países há uns anos atrás, onde se chegava ao cúmulo de se organizarem concursos de distância, à janela, e sempre precedidos de um sonoro RRRRRRUUUUUUUUUUUAAAAAAAAAAAACCCCCKKKKKKK Portanto, respeito, educação e limpeza sim, mas deixemos as pedras de parte e o telhado do vizinho em paz!


Compreende-se assim a preocupação em que todos se descalcem à porta, antes de entrarem em casa. Em carpetes onde se passam as mãos não podem passar tais sapatos, pois claro!


A limpeza, corporal e espiritual é preocupação muçulmana bem conhecida. No século XIX, quando o líder tchetcheno Imã Chamil se rendeu ao Czar após violenta guerra contra os russos, perguntaram-lhe então se era verdade que durante a guerra costumava comer os prisioneiros que capturava. A resposta foi simples: “Sou muçulmano! Não como porco!”. (com todo respeito).

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