sexta-feira, 22 de maio de 2009

Tolerância étnica

Foto: Herói com o habitual instrumento pacificador dos Balcãs. Prizren, Kosovo.



Tendo em conta as chacinas que ocorreram por aqui há uns dez anos atrás entre Sérvios e Albano-kosovares e o facto de não haver praticamente família nenhuma (de qualquer das partes) que não tenha decrescido subitamente de membros à custa dessas matanças, a confiança inter-étnica é, compreensivelmente, mínima.

Por vicissitudes históricas e manigâncias políticas múltiplas, ambas as comunidades sempre viveram, desde os tempos mais remotos, mantendo uma certa distância entre si. A mesma cidade, mas com um rio no meio (Mitrovica), uma grande cidade mas com outra satélite nas imediações (Prishtina e Gracanica), ou nas regiões mais rurais, em aldeias separadas, sempre com alguns Kms de permeio, embora bastando - para lhes identificar a origem - atentar nas bandeiras próprias sempre presentes, ou na sua (rara) falta, na mesquita ou igreja ortodoxa que orgulhosamente sempre ostentam.

Tolerância tem sido a palavra chave e primeiro passo no sentido da reconciliação final, à parte do problema político da independência que significativamente a vai impedindo. Tolerância, tolerância, tolerância e mais tolerância! E vai de alguma forma surtindo alguns efeitos visíveis.

Tolerância, porém, não é conceito unívoco, mas gradativo:

“eu devo ser tolerante com o meu IRMÃO na casa do meu pai porque esta casa é tanto minha como é dele” (grau 4);

“eu devo ser tolerante com o meu VIZINHO, mas dentro da minha casa mando eu” (grau 3);

”eu devo ser tolerante com o CÃO na rua, desde que não me importune, e que nunca pense em abrigar-se dentro da minha casa” (grau 2);

e finalmente, “eu devo ser tolerante com O TIGRE, em via de extinção, desde que se mantenha lá longe, na selva e fora da minha vista. Se rondar por aqui, não volta a fazê-lo e para isso aqui tenho o meu fuzil” (grau 1).

Analisada a presente situação - sempre volúvel - direi que no norte do Kosovo o “rate” de tolerância é actualmente entre 1,5 e 2. No restante, entre 2,5 e 3, o que, concede-se, não é animador.

Há porém que contar, por um lado, com a tradicional maneira de se resolver os problemas à maneira eslava (veja-se na Geórgia e noutros territórios sub-caucasianos); e, por outro, com a lógica albanesa de que “sangue se lava com sangue”, conforme ao milenar Código de Lek Djukadjini, ainda muito vigente na mentalidade albanesa. (voltarei um dia a este código, tão interessante se apresenta nalgumas das suas facetas).

 A separação das águas é, definitivamente, entre vítimas e criminosos e não entre albano-kosovares e sérvios. Porém, independentemente do grau, a tolerância sempre será opção preferível à barbárie.

Sem comentários:

Enviar um comentário