
A música kosovar define-se como uma espécie de música albanesa. Já a música albanesa define-se como uma espécie de música turca. A parte rítmica não casa lá muito bem com a parte vocal. Vivem separadas. Quando o cantor-herói trina a suas cordas vocais em “sobe-e-desce” artístico, os tambores baixam as orelhas. Quando o desvario vocal termina, é que começa então a parte dos pífaros, também em “sobe-e-desce”, semelhantes a encantadores de serpentes, durante a qual lá vem então a parte rítmica, nunca muito acentuada. E lá vem outra vez o artista vocal, que entretanto teve tempo para descansar, repetir a mesma cantilena.
Grande parte das canções tradicionais versa o amor romântico, reflectindo à saciedade a separação entre o grupo masculino e o feminino, inerente a qualquer cultura islâmica.

É frequente a “desgarrada”: alguém de entre um grupo masculino provoca uma donzela que se encontra entre outras, dirigindo-lhe uns versos cantados. A mulher ouve atentamente, finge não gostar, e logo responde cantando, sob o aplauso das restantes. O homem, que come mas não cala, logo responde à altura, perante o riso dos companheiros e a indignação do mulherio. E por aí adiante, tipo Vasco Santana e Beatriz Costa nos meares do século passado. Entre cada parada e resposta, lá vêm subsequentemente a parte dos pífaros e dos tambores.
A provocação leva à aproximação de ambos os grupos e acabam todos a dançar como num rancho. Porém, nunca por nunca, os homens tocam nas mulheres: aproximam-se delas, assistem, rodeiam-nas, batem palmas, ajeitam o “meio-ovo” na cabeça, sorriem deleitados, abrem os braços enquanto elas simplesmente dançam, sorriam e abanam um lenço vermelho. Tocar é que não.
Tudo isto se passa normalmente em lugares idílicos, previamente escolhidos, no meio de montanhas e rios, onde sempre existe uma bandeira albanesa desfraldada, assim como que, por acaso.
Estas músicas e danças passam na televisão pública, em vários canais, 24 horas por dia. Passados 20 minutos, o filme já está visto e revisto e os ”sobe-e-desce” começam a provocar danos nos tímpanos de quem não está habituado. Mas diga-se para alívio dos cidadãos de fora que aqui existe televisão por satélite, e também por cabo. Até a SIC notícias, a SportTV e os Telecines se apanham. Não me perguntem por que via, porque não vou responder.
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