terça-feira, 7 de julho de 2009

Organizem-se!

Numa habitual conversa de café com um dos meus assistentes manifestei-lhe a impressão de que a criminalidade de rua e actos associados são mínimos no Kosovo. Não se vêem roubos, cenas de pancadaria, assaltos ou furtos a estabelecimentos, carros arrombados. Não se vêem sequer algazarras nocturnas por excesso de álcool ou drogas, (e os inerentes e normais estabelecimentos ou carros incendiados ou com vidros partidos) ganguezinhos violentos a limparem os clientes de restaurantes ou de autocarros, consumidores a ressacarem, a fliparem ou a injectarem em público. Se existe – e naturalmente que existe – não se vê.

A resposta veio célere, discutível como todas: Em países com problemas de crime organizado, não se vê … crime desorganizado. O crime organizado é como o caruncho da madeira – só sobrevive e se expande bem escondido no interior da madeira, enquanto esta mantiver a sua aparência normal. Caso contrário lá vem veneno, e lá vai o caruncho. O crime organizado não se dá bem com actividades paralelas de amadores, diletantes ou free-lancers - individuais ou em gangue - que só sabem é atrair a atenção das autoridades para onde não devem. Por outro lado, não podem estes pequenos delinquentes se darem ao luxo de partir montras de lojas de fachada (lavandarias de dinheiro), ou de assaltar honestos comerciantes, que até têm as “quotas em dia”. Sabendo disso, o pequeno delinquente nem sequer arrisca pensar numa coisa dessas, sob pena de aparecer subitamente atropelado no meio de um descampado. E “indo desta PARA MELHOR”, nem sequer há dano morte a ser indemnizado à família. Quer ser criminoso, inscreva-se, respeite as regras de quem é mais velho e experiente, e poderá então seguir uma carreira direitinha, com promoções a preceito. Não quer, então vá trabalhar. Assim, em países recentes o crime tende a ser organizado; em países ditos Estados de direito, a liberdade impera no que respeita à livre iniciativa.

Sugeri então: “E porque não acabar com o caruncho?”. Resposta imediata: “E acabar com o caruncho extermina o crime? Ou só o desorganiza? No plano dos princípios estará certo mas, se os princípios funcionassem não se descriminalizaria o consumo de droga nem se verificariam Auschwitz, Sbrenicas ou Guantanamos”.

Poderia argumentar que não o fazendo, a madeira acabará defunta e sem salvação possível, mas certamente a resposta seria “o ideal será travar o avanço do caruncho, nunca o deixando avançar demais, mas também não acabar com ele, porque é muito útil contra novos carunchinhos”. Enquanto isso o cidadão normal vive pacatamente na superfície polida da madeira. Até que um dia tem uma surpresa desagradável e então já será tarde para mudar alguma coisa, direi eu.

Os Balcãs têm problemas estruturais de mentalidade que só o tempo, a educação cívica e a experiência podem paulatinamente mudar. Mas não é só nos Balcãs, infelizmente.

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