segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O bigode virtual

Nos saudosos anos 70 (porquê saudosos? Porque já passaram!), perguntava-me uma amiga brasileira: “porque é que os portugueses usam bigode?” como eu não usava, achei estranha a pergunta. Porém, ao escrutinar os jornais e revistas da época verifiquei que pelo menos nos futebolistas era cada tiro, cada melro, cada buraco, cada minhoca. Com os anos as modas passam e lá se foram os bigodes de revolucionários e proletários substituídos pelas carinhas larocas de golfistas, empresários europeus e jovens agricultores. Todavia, ao raparem o bigode, e pouco habituados ao frio que resulta da falta do apêndice capilar bem junto do arfar nasal, o espaço entre o lábio e o nariz enrijeceu de vez, como se atacado por botox. Não é coisa grave, uma vez que em Portugal (ao contrário dos Estados Unidos) só é sério (e é levado a sério), quem não mostrar muito os dentes. Quanto muito os maxilares inferiores, nunca os superiores! Por isso, quer os jornalistas, quer os políticos foram - e ainda são - acérrimos seguidores da moda do bigode virtual que ainda por cima esconde, amiúde, dentes tortos, amarelos e cariados. Dá-se alvíssaras a quem tiver já enxergado, por dois segundos que seja, os maxilares superiores de Miguel Sousa Tavares, Manuela Moura Guedes, etc, etc, enquanto botam faladura na televisão; ou os maxilares superiores de Passos Coelho, Francisco Assis, Silva Pereira, Morais Sarmento, Jaime Gama, Dias Loureiro, Manuel Alegre, etc, etc, etc., enquanto se dirigem ao país. Pois é. Há excepções: do cigarro ao sorriso cintilante quando o táxi do partido aumentou de tamanho; e da baba e do perdigoto ao mesmo sorriso cintilante antes de virar presidente. Mas como diria o gabiru, "o que a minha amiga brasileira queria sei eu! O que ela queria era acabar com o bigode virtual dos políticos e jornalistas e, como é dentista, emigrar para Portugal e virar magnata! Oh lá se não era!"

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