quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Que filhos de uma pata

Dizia um conhecido sociólogo que a fotografia de uma sociedade se tira facilmente pela análise das ofensas verbais mais comuns. No Kosovo, quem afirmar que “vou fazer isto e aquilo à tua mãe ou à tua irmã”, pode encomendar um caixão. Em Portugal não importa muito o que se anuncia para o futuro, mas ao invés, o que a mãe ou a esposa eventualmente terão feito no passado, designadamente quanto ao número de namorados de ocasião sem o conhecimento do filho ou do marido. Em ambos os referidos lugares se preza portanto em elevado grau a honra familiar do ramo feminino: no Kosovo qualquer reacção do ofendido visará proteger uma imaculada honra presente, contra anunciadas acções futuras (sem saber nem querer saber se a mulher se importa com elas); em Portugal, materialmente não se protege nada. Antes se tentará, ou punir calúnias, ou mascarar verdades. No Chile, o óscar das expressões ofensivas é apodar-se alguém de “morto de fome”, o que é curioso, na medida em que um degradado status económico parece imputar-se culposamente ao visado. No Brasil, por mais que a mamãe continue nas bocas do povo, por mais que se chame alguém de “viado”, ou de qualquer outro animal chifrudo, a tendência mais moderninha é para se desprezar tais referências, uma vez que, quer o visado, quer a sua progenitora ou esposa, não dão mais do que o que é deles, e sendo deles, dão para quem quiserem. E para complemento desse adágio, outro se vai usando: “Lavou, ´tá novo!”. Em vez disso, valoriza-se muito mais a educação: se os pais não sustentam economicamente os filhos, talvez não pudessem mais; mas se não dão educação é porque, ou não a têm, ou são realmente pais desnaturados, o que em qualquer dos casos envergonha os filhos. Sendo assim, apelar para a educação - em vez de partir para a ignorância - é a chave do sucesso de qualquer ofensa verbal no país do Samba: “Seu sem-educação! Sua mãe não te deu educação não?” Um dia a sociedade censurará mais as más acções próprias de cada membro do que as da esposa, da irmã, da mulher, dos pais ou até do Estado. Até lá… ardam as orelhas das mulheres da família enquanto os homens se esfaqueiam e os Tribunais logo os recebem de braços abertos mas firmes.

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