quinta-feira, 21 de maio de 2009

Processo matrimonial kosovar

Foto: Café de marmanjos em cima com especial campo de visão sobre as moças casadeiras que se deslocam à loja em baixo.  Gjilan, Kosovo.



Como casar um filho no Kosovo. O manual de consulta rápida, segue abaixo:

Processo comum

Reunida a família alargada de um marmanjo, considerado este  com idade para trabalhar e para ter juízo, forma-se então um grupo especial de acção: as mulheres da família começam a sondar o vilarejo à procura de candidatas disponíveis; após nova reunião (debriefing), procede-se a uma pré-selecção. Após verificação meticulosa da propensão das respectivas antepassadas para procriarem com facilidade e da exaustiva verificação da ausência de laços de parentesco próximos entre ambas as famílias (pré-requisitos), analisa-se então a credibilidade social da família a que pertencem (relatório do IRS) e o comportamento individual demonstrado pelas candidatas no dia a dia (CRC do boca-a-boca).

 Pré-seleccionada a short list, é então ouvido o marmanjo para se pronunciar (direito de defesa), sendo este parecer não vinculativo para a decisão final.

Reunida novamente a família alargada na ausência do arg... do marmanjo, é então dado o veredicto e a ordem de execução.

A execução da decisão está inicialmente a cargo de um tio do marmanjo, cuja missão inicial é visitar o pai da escolhida, levando-lhe cigarros e simplesmente anunciando que o pai do marmanjo o deseja visitar em breve.

O pai da escolhida deverá receber no prazo de 15 dias e em data então agendada, o pai do marmanjo e seus acompanhantes familiares masculinos (normalmente o tio-núncio e um outro). Deverão portar consigo o dobro do cigarros inicialmente oferecidos. Por tradição, o anfitrião dirá que vai ponderar a questão.

Agenda-se então outra visita exactamente igual para daí a 15 dias (tendencialmente). Nessa nova visita, o pai do marmanjo, para além de mais cigarros, deverá reiterar a intenção em casar o seu marmanjo com a filha do anfitrião. Mais 15 dias se passarão até que o pai da moça se desloque pessoalmente a casa do pai do marmanjo e oficialmente anuncie a aceitação, fixando o dote e oferecendo-se para fumar junto com os ora anfitriões.

Aceite a proposta está fixado o noivado. Imediatamente toda a família do marmanjo sai à rua – marmanjo incluído – e dar-se-á início à comemoração: uma saraivada de tiros para o ar (happy shots) e/ou fogo de artifício, material aliás de muito fácil acesso nos balcãs.

Casamento marcado e celebrado – o qual durará dias – a noiva considera-se “entregue” quando, após a festa, entrar completamente no carro do noivo. Deverá entrar chorosa e depois de demorada despedida em relação a cada um dos membros da sua família de origem.

Inicia-se então o prazo de reclamações e de possível devolução à procedência, por motivos facilmente adivinháveis: 8 dias será o prazo razoável, dependendo das circunstâncias (a devolução da "moça" como acto contínuo a um "enxerto prévio" e inerentes nódoas negras é não apenas habitual mas prática admitida, desde que devidamente fundamentada. Não a exime porém de  "enxerto" subsequente, a cargo da família de origem).

Claro está que marmanjo e moçoila estão, durante todo aquele período prévio, autorizados a trocar olhares, caso se cruzem (encontrem por acaso) na rua. Mais do que isso inviabilizará provavelmente a conclusão do negócio e poderá provocar uso inadequado, e inter-familiar, dos instrumentos usados para o acima referido “happy-shooting”. Para além do referido "enxerto".

 

Processo abreviado

Admitido entre famílias menos tradicionais e mais voltadas ao hábito da emigração.

O marmanjo, já emigrado na Suiça, anuncia à sua família, via telefone, as suas pretensões. Em 3 meses, durante o verão deslocar-se-á ao Kosovo no seu bólide e chegará à cerimónia e à festa com alguns dias de antecedência. O grupo de acção é, neste caso, composto por ambas as famílias e vai no sentido de, principalmente, viabilizar a obtenção do passaporte da moça pré-indicada pelo marmanjo, de modo a que aquela esteja em condições de voltar para a Suiça, assim acompanhando o marido logo após a cerimónia, porque as férias estão quase no fim.

 

Processo sumário

Rapto e facto consumado, seguido de fuga para local incerto e durante tempo suficiente para se poder voltar com um filho ao colo. O filho funciona como salvo-conduto em relação a possíveis consequências mais funestas e exime o casal de subsequente oficialização do casamento, enquanto tradicional encargo familiar.

 

Como a justiça, a tradição matrimonial kosovar também tem seguido uma linha da celeridade inerente aos tempos modernos,  e o processo sumário e o abreviado têm tomado, paulatinamente, o lugar do processo comum. 

Sem comentários:

Enviar um comentário