sábado, 30 de maio de 2009

À saúde do Profeta

Foto: Os Dervishes, seita Sufi, em ritual de dança concêntrica, sem centrifugação. Típica de Konya, Turquia mas com filial em Djakova, Kosovo. 





Aviso à navegação: discutir política, religião ou futebol, o resultado já se sabe. Assim, vou avisando que vou falar sobre, mas não vou discutir. Este pretende ser um site opinativo e não científico pelo que a minha opinião, democraticamente, vale apenas o que vale. Nem mais nem menos.   


Nas inúmeras vezes que converso com Kosovares - mas principalmente com colegas internacionais oriundos dos 5 cantos da União Europeia - detecto o quanto Portugal tem mudado ao longo das últimas décadas. Longe vão os tempos da vetusta trinomia Amália, Eusébio e religião! 


Agora os tempos são outros: no melhor restaurante kosovar de Prishtina – Balance, de seu nome – o garfo pára à entrada da boca quando escuto os primeiros acordes de... Marisa!! Digo que sou português e lá vem o tema do Cristiano Ronaldo e do Figo! Mas como disse, os tempos são outros, mais modernos. Tudo mudou, porque de religião ninguém me fala.


Mas falo eu, que sou português!

Em 90% do Kosovo, retirada a franja mínima de cristãos ortodoxos e insignificante de católicos, o islamismo impera nas suas mais variadas vertentes. Como piada diz-se que há o islamismo sunita, o xiita... e o balcânico. Identifica-se este último como aquele que parece mas não é, um islamismo muito próprio ou com reservas, semelhante ao conceito de “católico não praticante”, mais a ocidente. Há porém duas seitas minoritárias, particularmente detectáveis a olho nu e que reclamam para si a autêntica herança do profeta, praticando, eles sim, o verdadeiro islamismo. Uma delas - os Sufistas – são vanguardistas, intelectuais e naturistas: vivem um islamismo em que os rituais se adaptam aos tempos modernos, ou seja passam a vida a estudar e a cantar (e a rodar como piões); usam um trajo uniforme que caracteriza cada uma das suas ordens, quais monges; a outra – os Wahabistas – são tradicionalistas ao extremo e se o profeta vestisse de verde às pintas, tivesse um tique no nariz e fosse maneta, eles seriam os primeiros a trajar à palhaço, a imitarem o tique ou a deceparem a mão, só porque sim. Ao contrário dos anteriores, adaptam os tempos modernos aos rituais. Usam barba comprida, cabelo rapado e calças particularmente curtas, acima do tornozelo (plenamente caracterizáveis como “a fugir à polícia” ou “a atravessar o Tejo”). Por algum motivo muito próprio, não se curvam, deitam ou ajoelham nas mesquitas e principamente não falam nem olham para as mulheres. Não ilustro aqui estas figuras através de fotografia por motivo óbvio: Respeito! (...pela pele de quem não correria suficientemente rápido após o click da máquina).    

Os sufistas vivem normalmente confinados em pequenos nichos, especialmente em Djakova, a sudoeste, e os Wahabistas, espalhados um pouco por todo lado (mas muito pouco mesmo).


Os restantes – os ditos balcânicos – levam a sua vida normal e encaram estas seitas precisamente como em Portugal um regular cidadão encara os Beneditinos, os Franciscanos ou as irmãs Salesianas. Eles na deles, nós na nossa. “Querem andar descalços, louvar às 5 da manhã, rodopiar em transe, não olhar para mulheres, o que seja? Força! Nós – os menos puros – continuamos a frequentar a mesquita pelo lado de fora por mais que o “muezin” nos chame; continuamos a olhar para as mulheres especialmente as louras; continuamos a beber cerveja Peja mas só até acabar a grade; e continuamos a beber um copinho de Rajka (com 45% de álcool) para fins terapêuticos (dor nos ossos, frio, tosse, impressão na garganta) e para fins preventivos (evitar que os ossos venham a doer, que venha o frio, a tosse ou a impressão na garganta).”  


É pura verdade que cada vez mais aparecem mulheres embrulhadas em véus e que tal se deve a alguns mecenas do médio oriente que oferecem 200 Euros mensais a cada família que adopte a prática islâmica no seu dia a dia. Isso significa que a mulher não deve trabalhar fora de casa, pelo que a contrapartida terá que ser um subsídio que compense a demissão do anterior emprego. Tendo em conta que tal subsídio equivale ao ordenado médio kosovar, esses mecenas não imaginam o sucesso de “conversões” que conseguiriam noutros lugares onde a crise tem vindo progressivamente a apertar a cintura das mais laicas cidadãs.


É assim muito reduzido o perigo de talibanização por estes lados, o que tem sido patentemente reconhecido pelos americanos, aqui considerados os maiores amigos do Kosovo, como o demonstrou a visita de Joe Biden a Prishtina durante a semana passada, tendo sido recebido qual novo enviado do profeta. Aliás, muitos muçulmanos ainda se mostram gratos aos monges sérvios ortodoxos que os acolheram nos mosteiros durante a guerra em 1999, e que, dessa forma, lhes possibilitaram continuarem a orar ao profeta a partir deste mundo terreno, apesar das investidas dos para-militares no sentido de lhes facilitar um rápido ingresso no céu.


No aspecto religioso a tolerância é assim de grau 4 (ver um post anterior). Penso que aqui nunca se proibiriam as freiras católicas de frequentar a escola só por usarem lenço na cabeça e terço ao pescoço (como se fez com o véu islâmico em França). Afinal, véu islâmico, lenço de freira e tolerância, quando existam, usam-se todos no mesmo sítio: na cabeça.  

Sem comentários:

Enviar um comentário