domingo, 12 de julho de 2009

Aquele olhar

Quem passeia pela principal avenida central de Prishtina – a da Madre Teresa - a qualquer hora do dia ou da noite, não pode deixar de ficar impressionado com o gradeamento do edifício do governo onde se desfilam as fotografias dos desaparecidos durante os acontecimentos de 1999 em todo o Kosovo, o que é dizer-se, a barbárie, a desumanidade, os crimes, o genocídio, as atrocidades, a carnificina, etc, etc., levada a cabo por milícias paramilitares. As palavras são aplicáveis a qualquer dos genocídios que grassaram na última década do século XX – Kosovo, Bósnia, Timor-Leste e Ruanda. As fotografias penduradas no gradeamento correspondem hoje - mais que provavelmente - a gente morta, mas ainda não descoberta. Gente civil que se encontrava em sua casa, e que não conseguia dormir em pânico, noite após noite, à espera de visitas que acabariam com a sua existência; gente que assistiu à carnificina dentro da sua própria família; gente levada à noite para sítio recôndito para um destino cuja certeza era assegurada. Tudo porque pertenciam à etnia errada, no momento e local errados.

Aquelas fotografias são de gente provavelmente morta, mas o olhar de cada uma dessas pessoas ainda vive: fita-nos fixamente quando os olhamos, bate fundo no nosso âmago, impõe um respeito silencioso. Não é gente do tempo dos nossos pais. É gente que vivia o seu dia a dia, quando eu estudava o que eram direitos humanos, ou quando aparava a relva do jardim da minha casa nos Açores. Foi há uma dezena de anos, ou pouco mais!

Pode a Eulex (e a ONU) apostar na pacificação, na conciliação, no futuro e na justiça, mas as fotografias e aqueles olhares ali continuam, à espera. Muito se tem feito, principalmente se virmos alguns resultados obtidos. A justiça vai tardando mas vai-se fazendo. Sabe-se porém o que são julgamentos realizados 15 anos depois, principalmente se dependentes de depoimentos testemunhais. Sem um sistema internacional preventivo mas efectivo, a ignorância e a animalidade encarregar-se-ão de nos fornecer mais gradeamentos com fotografias, as quais pouco nos interessarão, até nos cair na rifa. Até lá continuaremos a estudar direitos humanos e a aparar a relva no jardim, ou, citando o poeta alternativo, “sentados no trono de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”. Enquanto isso, aqueles olhos não se fecham! Continuam ali.

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