terça-feira, 10 de novembro de 2009

Lutas laborais

Foto: No Séc. XXI ainda há quem traduza por "O trabalho (dos outros) liberta (o nosso)".





Melhores condições de trabalho - são a solução da actual crise mundial. Da actual, da passada, e da que há-de vir. Sem condições de trabalho não é possível trabalhar-se (receber-se o salário, sim).
A maior aspiração de muitos (kosovares e não só) não é desenvolverem alguma coisa na área que lhes agrada, numa perspectiva de progressão profissional pelo mérito, monetariamente compensadora e motivante. A maior aspiração profissional de muitos é fazerem o que gostam, num emprego estável e bem remunerado. O problema começa, porém, quando fazer o que se gosta é sinónimo de beber café, conversar, fumar e pensar na vida, de preferência na frente de um televisor.
Este tipo de actividade estável normalmente não é remunerada no Kosovo, nem sequer com rendimento de reinserção. Mas na falta de melhor, se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé. Os escritórios de trabalho estão normalmente artilhados com cafeteira, fogãozinho, micro-ondas, frigorífico, televisor, sistema de som (com sub-woofer até), bolachinhas e cinzeiros. E são os trabalhadores quem trata disso, não os patrões.
Ainda assim a produção não aumenta? Mais uma vez, as condições de trabalho ainda não são as suficientes. Há que ter telemóvel pago e veículo para as necessárias deslocações. Desta vez, serviço e conhaque são bem distintos e é o patrão quem tem que arcar com as despesas.
E a produção? Uma vez mais, não aumenta, certamente porque os empregados passam muito tempo enfiados no seu posto de trabalho. Há que espairecer de vez em quando, senão o stress bloqueia o cérebro, e uma saidinha ao café da esquina, ao banco, a casa, à loja não é nada que impeça uma boa produção laboral. Só que o tempo passa e ela continua sem aparecer.
O patrão perde a paciência e uma de duas: ou fecha o estabelecimento porque não consegue ser prior de freguesias deste jaez, ou pega no chicote e instala um regime nazi, onde paga o justo pelo pecador.

Pese embora a prática da chibatada tenha provocado inúmeros aplausos mesmo por quem as costuma levar (gosto que lhes adveio do hábito e da rotina), o certo é que os estabelecimentos continuam a fechar e a produção continua em baixo.
De quem é a culpa afinal? A culpa será da falta de motivação positiva? Ou será dos chineses... que trabalham ao preço da uva mijona?

Independentemente da reposta que se encontre, parece evidente que a diferença entre o empresário competente e o incompetente está em que o primeiro, pelo menos, tenta eliminar os males, o segundo basta-se em tentar justificá-los.

Ao passar os olhos pelo novo programa para a Justiça em Portugal parece que se optou finalmente por se preferir motivar os magistrados, em vez de chicoteá-los com o peso da culpa social de todos os males da justiça, da humana e da divina.
Parece existir agora uma maior abertura em dotar-se a justiça de meios funcionalmente eficazes e de combate à burocracia. Seria óptimo todavia, que os juízes também participassem activamente na organização dos próprios tribunais em que trabalham, e que se gerasse um "team spirit" na análise crítica da própria actividade.
Em qualquer empresa há reuniões semanais onde se apresenta e discute o que se fez e o que se vai fazer. Já nos Tribunais há 3 reuniões anuais: para as eleições do sindicato, para as eleições do Conselho e para se discutir os turnos de férias. Tudo o resto funciona em modo automático e na velocidade-cruzeiro própria da burocracia.
Mas haverá tempo para mais? Em prejuízo de mais julgamentos e de mais sentenças? Ter a farinha e o bolo ao mesmo tempo é o que agora se pretende. Mas pelo menos tenta-se resolver, e não apenas justificar (ou crucificar).

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