quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Novas e velhas fábulas

Era uma vez uma cigarra que adorava cantar. Mesmo com a chegada da crise mundial, e apesar de sujeita aos sacrifícios generalizados do aperto do cinto, nunca a dita cigarra deixava de cantar, transparecendo uma imagem de felicidade que constrastava aberrantemente com a melancolia geral. Tudo o que a cigarra queria era extravasar uma felicidade maior que a real mas que fosse tão grande, tão grande, que se expandisse à sua volta, e assim contagiasse os animais vizinhos. Ajudá-los com um espírito positivo para conseguir inverter a deprimente melancolia em seu redor, era o que mais queria. Claro está que não deixava de cumprir com os seus deveres laborais, mas sem fazer disso muito alarde, porque o que verdadeiramente lhe interessava era expandir as suas cantorias. Não conseguiria viver feliz no meio de tanta infelicidade, por mais que a sua própria felicidade fosse mais aparente que real. A crise não perdoava.

A vizinha formiga era o oposto. Deprimida com a crise mundial, raramente se sentia feliz. Tal só acontecia quando verificava que afinal havia gente mais infeliz ainda, nem que, para isso houvesse a formiga que contribuir com alguma ajudinha, por mais enviesada que fosse. Não conseguia conviver pacificamente com cigarras egoístas, que não manifestavam a mínima solidariedade com a depressão geral e ainda se punham a cantar, como que troçando das dificuldades dos demais. Claro está que, com a depressão, os deveres laborais da formiga ressentiam-se negativamente mas, por outro lado, tanto se queixava a formiga do seu excesso de trabalho que nunca alguém acreditaria que todas aquelas horas nocturnas que passava no escritório afinal não eram de árduo trabalho, mas antes num longo chat na internet.

Passada a crise, o resultado foi o do costume: a cigarra foi maginalizada profissionalmente enquanto que a laboreira formiga foi promovida a um cargo que lhe permitia fazer ainda menos do que antes. Assim pararam as queixinhas de excesso de trabalho e aumentaram os tempos de chat. A sua única função passou a ser a de promover novas formigas e de castigar novas cigarras. Já a cigarra continuou a ver a banda passar e a tentar aprender o moral da história: o violão toca-se, mas não se mostra. Nem sequer nos blogues.

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