sábado, 15 de maio de 2010

Tráfego rodoviário no Kosovo

Numa terra onde a ratio de veículos automóveis (de alta cilindrada) é dos mais altos da Europa, o Código da Estrada apresenta peculiaridades práticas de relevo. Eis algumas:


Na quase ausência de semáforos, a regra é não parar e ir avançando devagarinho até o nosso nariz conseguir impedir a passagem do veículo prioritário. Como o Kosovo é possuidor do mais eficaz regulador de velocidade (buracos profundos na via, também chamados de bumpers naturais ou negativos), os acidentes são mínimos e a táctica acima descrita resulta perfeita. Se não o fizermos seremos os culpados do trânsito não andar.


Na ausência de semáforos, vale a lógica do semáforo virtual: se alguém com prioridade cai no erro - ou na azelhice - de conceder passagem a alguém que quer virar, a regra é essa concessão se estender a toda a fila de veículos que se lhe seguirem. Todo o comboio de veículos, colados a quem virou, imediatamente se prestarão a agradecer a falta de pressa e a gentileza do condutor do veículo prioritário.


Qualquer conversa entre dois amigos kosovares quando se encontram começa invariavelmente com 5 minutos de salamaleikes: E como está? E como está a família? E se o trabalho corre bem? Com respostas e contra-questionário de idêntico teor, o objectivo da conversa chega por vezes ao fim de 10 minutos. Trata-se de uma questão cultural de educação e cortesia de que os kosovares não prescindem entre eles mas dificilmente atingível por um qualquer ocidental recém chegado. E o que tem isto que ver com o trânsito? Nada, excepto se os amigos kosovares casualmente se encontrarem no meio da estrada, cada um dentro do seu veículo. É ver então os restantes kosovares pacientemente à espera na fila atrás, e os internacionais a bufarem que nem chaleiras enquanto olham o relógio e praguejam na privacidade do seu habitáculo.


Na Praia da Vitória, ilha Terceira, Açores existe um cruzamento em que cada uma das 4 vias tem um sinal de STOP. A lógica afinal é que todos parem e fiquem a pensar de quem é a prioridade. Nos entretantos, avança o mais corajoso e não há acidentes. Em Gjilan, Kosovo, também existe um cruzamento com os mesmos 4 STOPs. A diferença é que ninguém pára, embora o efeito moderador da velocidade se consiga através dos métodos acima descritos.


No Kosovo, a importância dada ao casamento, à família e aos filhos é enorme. Daí que se verifique um forte laço em relação aos menores (especialmente os primogénitos machos). O controle e a protecção familiar aos menores é visível, o que se reflecte em fracos índices de criminalidade juvenil. Por isso, conduzir em velocidade frente a uma escola primária é - mais que um crime - um sacrilégio que pode ter até como resultado uns tiros a rasar o carro. (Será como buzinar em frente de um funeral em Timor). Para evitar esses incidentes, onde há escola há radar, polícia e multa. Fica o aviso para os incautos internacionais. O melhor será seguirem um veículo local e imitarem a velocidade dele. Ele conhece todas as curvas e escolas de cada estrada.

Como se vê acima, conduzir no Kosovo é um jogo de sedução: avanças tu, avanço eu, sem abusar, até onde o outro deixar, e sempre com o olho na polícia.

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