domingo, 14 de novembro de 2010

A liberdade dá trabalho

Lembro dos tempos pré-CEE quando não havia centros comerciais e o divertimento nacional era ir a Badajoz comprar caramelos. Por dois motivos: porque eram mais baratos e porque, daqueles, em Portugal não havia. Mas agora os tempos são outros. Agora não há fronteiras, a globalização e as regras da concorrência levam tudo a todo o lado, e pelo mesmo preço. E mais ainda. Agora há centros comerciais.

Falando dos caramelos dos tempos modernos, eis o objecto da nova gula: o AIFONE 4, de 32 Gigas. Disponível em qualquer centro comercial português meses após o seu lançamento nos Estados Unidos e – coincidentemente - dias antes do recebimento do subsídio de Natal (que não foi cortado), o AIFONE 4 é o sucesso do momento em Portugal. Todos caem de 4 quando o vêem, e todos gritam AI quando sabem o seu preço. Numas curtas férias em Portugal vi recentemente vários maluquinhos da tecnologia a entrarem embevecidos numa loja de telefones e, logo após, a saírem com um deles na mão, junto com um contrato de casamento de 2 anos com a operadora. E lá se foram 690 Euros. Para os mais promíscuos que não gostam muito de fidelizações e que preferem introduzir e tirar o seu SIM card chip com mais frequência, seja em Portugal, seja no estrangeiro, existe a opção AI AI AI fone, que custa 1299 Euros, livre de compromissos. Ou seja, uma diferença de 609 Euros.

Claro está que sempre podemos decidir passar um fim de semana em Genève na beira do lago, com montanhas nevadas ao fundo (124 Euros pela Easyjet + 134 Euros no Crowne Plaza 4 estrelas, num total de 258 Euros) e aproveitarmos para adquirir o mesmo AIFONE desbloqueado por… 671 Euros, ou seja menos 20 Euros do que o bloqueado em Portugal e menos 629 Euros que o livre. Ou por mais um pouco, ir aos Estados Unidos e fazer o mesmo. Mas afinal para quê nos darmos a tanto trabalho? Mais Euro menos Euro, afinal somos todos europeus, o Mercado é global, todos esperam o mesmo tempo e, acima de tudo, as leis da concorrência acabam por compensar estes pequenos desfasamentos. Seja na Vodafone, seja na Optimus, seja na TMN o preço é coincidentemente coincidente, como coincidentemente tem acontecido noutros produtos do género. Coincidentemente vivemos no paraíso europeu e não sabemos. E voltámos ao tempo dos caramelos em Badajoz.

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