sábado, 25 de junho de 2011

Porque será?

Morar nos Balcãs do sul é amanhecer navegando num mar ocre de tijolos e telhas, aqui e ali furados por minaretes brancos, embalado em músicas onduladas. Podia estar a referir-me a uma qualquer cidade pacata na Turquia. Pois podia! Mas não era a mesma coisa! 

E porquê?
A pergunta responde-se com outra, que é a seguinte: porque razão, em quase 12 anos de pós-guerra, cerca de 90% das casas particulares kosovares permanecem em tijolo vivo, num aprimorado estilo de favela carioca?


Por sua vez, esta pergunta admite três respostas, qual delas a mais verdadeira:
1. Com a destruição da guerra, os pobres habitantes não tiveram posses suficientes para reconstruir as suas casas e foram-no fazendo à medida das suas parcas possibilidades, com a preciosa ajuda dos familiares emigrados na Suiça, e quem sabe, um dia destes - inshalah! - conseguirão terminá-las.
2. A cultura turca, embrenhada nesta região por mais de 400 anos, valoriza o luxo e o requinte (nem sempre estéticos) mas... apenas da porta da casa para dentro. Da porta para fora pode acumular-se lixo às toneladas que pouco importa. A beleza mostra-se aos amigos e os amigos convidam-se a entrar. Aos estranhos mostram-se as cruas fachadas de tijolos, e já chega. Justifica-se por isso que as pessoas se descalcem à entrada da casa.
3. Pelas razões enumeradas em 1., a legislação fiscal obriga os kosovares a pagarem uma espécie de IMI apenas a quem pode, ou seja, a quem já completou a sua humilde casinha. Quem "ainda" não a completou continua isento até a completar. E quando se considera completa a casa? Quando está devidamente estucada e pintada. Casa em tijolo paga? Não, naturalmente.
E podem os kosovares habitar a casa "enquanto em construção"? Obviamente que sim. Quem se atreveria a negar tal direito a vítimas de guerra tão atroz?

E com isto acabo, reproduzindo aqui uma das mais formuladas perguntas pelos kosovares: "porque será que os estrangeiros não nos visitam em turismo????????"

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